26 de setembro de 2006

ATRIBULAÇÕES DE UM MONGE COPISTA

Alguém deveria prevenir os aspirantes a escritor da existência da revisão. Quando se compra um livro imagina-se, geralmente, que está ali o fruto de alguma inspiração e de umas noitadas de trabalho (coisa de prazer e êxtase). Não é bem assim. Um romance é fruto de um longo trabalho de investigação, tentativa de domesticação de ideias díspares e muitos, muitos dias em que não se fez mais nada. Com o tempo e a experiência, este trabalho torna-se, ao contrário do que se possa pensar, mais lento e moroso. Os pormenores ganham uma importância extraordinária e a compreensão de que nada deve ser deixado ao acaso, apossa-se de nós.
Por isso, nesta noite, em que vou terminar de avalizar e acrescentar o enorme esforço do revisor, vejo as 397 páginas, subdivididas em 89.792 palavras ou 514.042 caracteres, como uma paisagem extensa que aguarda, tranquila, os leitores. Debruço-me sobre as sinalefas vermelhas e sobre as frases que construí ao longo destes anos com a concentração do copista. E constato que a impaciência que me tomava dantes pelo aperfeiçoar dos textos escritos desapareceu.
Resta a serenidade e, se tiver sorte, a Literatura.

24 de setembro de 2006


Há dias que (re) equilibram o desconserto do mundo. Por algum tempo.
A FRASE DA SEMANA
...veio do Ricardo A. Pereira, no the SUN: "Duvido que Santo Agostinho dissesse tão bem de Cristo como (Luís) Delgado de Santana". Lol!




18 de setembro de 2006

AINDA A MEMÓRIA
A Internet e outros suportes/transmissores de imagem e som trouxeram uma mudança ao conhecimento humano que ainda não conseguimos avaliar. Mesmo para as gerações jovens era impossível até há pouco tempo ter a certeza exacta de que um filme ou uma música assistidos na infância eram verdadeiramete como nos lembrávamos. A tendência da memória de longa duração é a de eliminar os pormenores não-essenciais e de dourar os aspectos vulgares. Daí que se fique feliz com a memória de um passeio à Costa ou de um filme em que a protagonista era uma lontra. Os dvds, com a republicação dos êxitos vintage vieram alterar tudo isso. A qualidade ou está lá ou não (é por isso que o José Barata Moura será sempre grande e o Avô Cantigas não se safa...).
A internet vai mais longe. Deixa-nos reconstituir ao detalhe aquilo que conhecíamos, solidificando de forma exacta a memória. Não sei se isto é bom ou mau. Mas uma lucidez qualquer é capaz de nascer desta situação.

CONTEMPORÂNEO OU A MORTE

Dá-me sempre vontade de rir assistir ao deslumbramento das pessoas pelo que é "moderno", "actual". Pelo artista que retrata o seu tempo, como se nessa identificação pudesse haver outra coisa que não seja o mero reflexo do que se está a viver. Há, nos meios intelectuais, uma atracção compulsiva pela "última linguagem", que amanhã será a "linguagem out", tal como o último deslumbramento já passou, sem que se tirassem daí as necessárias conclusões sobre a noção de "temporal".
Para quem ainda tiver dúvidas, fica este exemplo onde todos os detalhes foram estudados à exaustão... na óptica dos anos 80.



ps: I rest my case.

17 de setembro de 2006

A ESPADA INFLAMADA DE DEUS

Grupos islâmicos já vieram incendiar igrejas e ameaçar o Papa de morte... por este insinuar que a religião islâmica é frequentemente usada como um instrumento de violência.
Sou eu que estou a fazer confusão ou é isto que se designa como "uma contradição em termos"?...

14 de setembro de 2006


HAVANA, FILME PERDIDO

O que acontece quando um actor de Hollywood arranja dinheiro para realizar o seu sonho de dirigir um filme, esquecendo-se que um bocadinho de talento, um réstea, um tremeluzir... seria útil? É assim LOST CITY, o pavoroso filme de Andy Garcia. Quem quiser ver um actor a fingir que realiza, enquanto copia todos os clichés do mundo, faça favor de ir comprar bilhete. Os mais sensatos, abstenham-se. Eu fui ao engano, no Optimus Open Air. E, apesar do bilhete ser de graça, ainda tive vontade de ir pedir o reembolso.
Fujam!

10 de setembro de 2006

PARTILHAR


Em conversa com A. lembrei-me desta crónica, publicada originalmente no JL e o ano passado, n'O MEU QUERIDO TITANIC. E porque está calor e ainda falta muito para se ouvirem os guizos, se enfeitarem as árvores e se pensar nos outros, publico-a aqui. De graça, para os meus não-leitores de livros.


"MERRY CHRISTMAS MR. GOD

Está frio, na minha sala com quadros na parede e um sofá simples mas confortável. Arrefeceu bastante, este Inverno. Daquele frio estúpido de quem mora ao pé da água e longe de montanhas que tragam neve. O telemóvel toca. É um amigo que mora longe e tem um motorolacinquenta. Dói-lhe já não sei o quê. Mas nada que não possa curar com um ida ao médico que ele poderá pagar. Vem-me à cabeça a imagem de um dos muitos sem-abrigo que se espalham pela cidade. Aquele telemóvel dava para umas quarenta refeições decentes, pelo menos...

Na televisão passam projecções eleitorais e agitar de bandeirinhas. Quanto terá custado todo este circo partidário? Não foi de borla, de certeza... De boleia com um motorista e dono de pequena agência publicitária, na província, fiquei no outro dia a saber que os outdoor são, agora, feitos em vinil. Para não se estragarem com a chuva, diz-me. Por umas centenas de contos podemos ver a cara escarrapachada dos candidatos ao poder, até o Chico vir da areia. O que quer dizer, por mais tempo do a duração das suas promessas. Ainda bem que se evoluiu: já parecia mal ver os papéis dos cartazes a murcharem em direcção aos buracos das ruas. Afinal já somos Europa.

Esta tarde, um actor de telenovela afirmava que "Natal era tempo de pensar nos outros". Fiquei varado de espanto. Nunca teria esta revelação se não fosse ele? Durante uns dias vamos dividir o que normalmente puxamos só para nós. Só não percebi se o prazo acabava mesmo à meia-noite de dia 25 ou se me era permitido ajudar os menos afortunados de vez em quando...

Já é tarde. O alcoólico que costumo ver deitado em papelões num recanto da D.Luis I já deve estar a dormir. Com que sonhará ele? Provavelmente com uma cama macia e um cobertor por cima. Lembro-me de Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu a um campo de concentração, e interrogo-me em nome de quê conservamos gente a passar fome às nossas portas.

Imagino uma oração que começasse assim:

"Bem-aventurados os que acreditam que é necessária uma quadra festiva para se estar com os outros; os que julgam que o mundo é o mesmo desde que Deus o criou e que sempre assim será, ou por que outra razão ele o teria construído imperfeito; os que constroem estradas sobre estradas não se lembrando que um círculo não é mais que a junção de duas rectas tontas que não sabem onde para onde vão; os que defendem os direitos dos fumadores contra os fanáticos da saúde e que julgam ser sua a voz que lhes sai da garganta e não o som da droga mascarada de coisa avançada; os que se suicidam em nome de Alá, primos dos que mandaram executar judeus em nome de Cristo e irmãos dos que avançam com tanques pelas palestinas terras escritas sabe-deus-por-quem num bestseller chamado «Bíblia» e que tomam um prepúcio mutilado pelos homens como um sinal de imunidade divina; os que votam em candidatos que dizem transformar cidades-inferno em jardins-paraíso com um toque de magia; aos que têm tomates para mentir descaradamente a indispensabilidade de Valores Absolutos, enquanto à noite despem o fato e partem para engates nos seus carros de dez-mil-contos-pra-cima; às mulheres que dizem votar em consciência contra a despenalização do aborto e, na semana seguinte, vão (usando a expressão M.E.C.iana) «abrir as pernas a Londres», livrando-se do descuido; aos brancos que constroem casas à prova de pretos famintos; aos pretos que constroem casas à prova de brancos esfarrapados; aos preto e brancos que constroem casas à prova de todos os que não são iguais a si próprios; aos que julgam que o dinheiro que metem ao domingo na caixa das esmolas para a Senhora do Imaculado Coração, ou paras almas do Purgatório, vai direitinha aos pobres do mundo; aos que caminham embriagados para as catedrais de futebol e, beijando os cachecóis, dizem: «Isto é que é sagrado»; aos que julgam que as vozes discordantes se calam com manobras perversas, murros na boca e despedimentos; aos que bateram hoje nos seus filhos, julgando estar a dar-lhes uma mensagem de amor; às mães que se julgam pai e mãe; aos pais que se julgam mãe e pai; aos que cortam o cabelo no mesmo barbeiro do pai, porque não concebem que haja outra forma de talhar o bonito louro; aos que criaram uma ruga no meio da testa por tanto criticarem o mundo em vez de tentarem compreendê-lo nas suas imperfeições; aos jovens que acreditam que serão assim para sempre e que não existe nada para lá da perfeição dos seus corpos; aos Pais-Natais que se juntam às portas dos centros comerciais deixando as crianças confusas com o milagre da sua multiplicação; aos mesmos que descem de helicóptero em colégios pobres ostentando os logos das empresas patrocinadoras... Porque é deles, segundo o bestseller, o Reino dos Céus.

E já agora..." Bem-aventurados:

Os que abraçaram hoje de manhã aqueles com quem vivem; os que se voluntarizam todo o ano para encontrar roupas, comidas e palavras de reconforto e levam tudo isso aos vãos de escada húmidos, tresandando a urina; aos que acreditam que é possível viver sem mentir aos outros; aos que crêem que o mundo é mais imperfeito que a Vida; aos poetas, por verem as várias dimensões do mundo e tentarem pôr em palavras a linguagem do Invisível; aos frades de toda a espécie que se levantam cedo e no desconforto das suas celas se sentem felizes por estarem habitados por uma luz maior que natural; às mulheres que lavam escadas para pôr o pão no prato de filhos que, em troca, lhes cospem em cima e reclamam ténis de vinte contos ou mais; aos homens que amassam cimento e pregam tábuas, em silêncio, para que atrás referidos atletas se divirtam em tertúlias e orgias de batas pretas e cervejolas; os que atravessaram continentes para no meio de línguas estranhas e máfias exploradoras tentarem criar uma família; os que irão morrer por estarem algures no mundo a dar vacinas e a meter colheres de alimentos na boca de crianças com a face coberta de moscas, enquanto à sua volta, famintos desconfiados discorrem sobre o que fará este estrangeiro no meio deles e se será muito difícil estrangulá-los e fugir com o seu relógios que parece valioso Bem-aventurados os que amam... Porque deles, deveria ser o Reino da Terra..."

Estranho... De repente, a minha sala amornou... Feliz Natal."

in O MEU QUERIDO TITANIC

9 de setembro de 2006

IIn Nomini Patre, et Filii...



O VÍCIO DAS SÉRIES...



ESCUTAS DOURADAS

Por uma vez, as nossas pides de trazer por casa não gastaram o seu tempo a gravar os mexericos das actrizes das novelas e a vendê-los aos jornais de escândalos. Usaram um bocadinho dos seus dias de trabalho para tentar encontrar provas para aquilo que todos nós sabemos há anos e anos. Mas não servirá para nada, este esforço, enquanto tivermos um sistema judicial que permite que uma prova "deixe de existir" porque não foi cumprida uma formalidade legal. Enquanto não se tirar esse inacreditável tapete dos pés dos advogados pagos a peso de ouro pelas máfias futebolísticas e outras, a ideia de "Justiça" não passará de uma anedota. "Vi, ouvi, houve crime, mas o guarda republicano esqueceu-se de preencher a alínea 22 do formulário, por isso, vá na paz do senhor"... Ora tenham dó da gente.

7 de setembro de 2006

...QUANDO NASCE É PARA TODOS

Dizem-me do Céu, que já esgotei o número de comentários sarcásticos até ao final do ano. É difícil dizer bem, é certo. Mas temos de fazer um esforço. Por isso lá se vai o post sobre o "Sun"...

A DINASTIA

Um grupo de pais e de filhos, vestidos com roupas de opereta, fazem a mesma cara com que os juízes da coroa julgaram o Tiradentes e entram na arena. Vão orgulhosos e felizes por aquecerem as brasas moribundas de uma crueldade que se julgava perdida. Em breve enfiarão ferros na carne de um animal criado apenas para morrer por isto. Pela crueldade. Pela visão da crueldade. Mostra-se o bicho - que até tem nome - e de relance vemos-lhe as carnes que se dilaceram, o sangue que espirra e pressentimos o ritmo cardíaco que dispara. É o pior de Portugal a vir ao de cima.
A pergunta é: o que faz a televisão pública, que devia estar na vanguarda do pensamento humanista, ali? Por que razão, semana após semana, o dinheiro dos contribuintes é gasto com a transmissão em directo da tortura de animais? Alguém me explica?

28 de agosto de 2006

QUATRO DA MANHÃ

Uma última vírgula, uma frase ajeitada e o "LIvro da Glória" entra na fila dos anexos, à espera do chamamento do e-mail para a editora. Vai contente, vagamente ansioso. Mas é normal, acabou de chegar a este mundo. Sabe que ainda tem as vírgulas trocadas e que muitos artigos definidos se perderam pelo caminho.
Quatro da manhã e em várias partes do mundo está-se em guerra. Noutras, haverá pessoas a dormir, encolhidas em buracos, tentando iludir a fome até que a manhã chegue. Enquanto um romance viaja pela net, alguém cai para o lado, exausto, tocado ainda pelo êxtase do outro corpo. Nalgum hospital perto, estará uma criança a nascer e um homem velho a despedir-se do mundo. E enquanto o vento empurra o cortinado do quarto de onde escrevo, pergunto-me para que serve aquele livro que segue em anexo para o revisor...



24 de agosto de 2006




"PLUTÃO PODE SER DESPROMOVIDO"


Parece que finalmente vai ser feita justiça. A despromoçao do planeta Plutão à 2ª liga não é mais do que um acto que há muito deveria ter sido executado.
A mim, bastantes vezes me lixou a vida, aliando-se a Saturno e colocando-se entre Vénus e o Sol. A coitadinha da nossa abelha astróloga, nem sequer sabe o que há-de dizer para nos consolar, nessas ocasiões.
É para ver se estes astros aprendem !

23 de agosto de 2006

A PASSAGEM DO VERÃO
Este ano, vi o Verão acontecer diante da minha janela. Gente de calções e sapatilhas a caminho da praia, restaurantes que fecharam desejando aos clientes "Boas Férias"...
Em troca, tenho um manuscrito na frente.
You'd better be good, baby... Ou vais ter que me ouvir cada vez que te olhar para a capa e me lembrar que deixei o mar à espera!
(lol)

P.C. "Costa da Caparica"

20 de agosto de 2006

ROMANCE
Chego ao fim da sua escrita, a pilha de páginas que cresceu desmesurada desde a primeira palavra. Já não é meu e ainda o não acabei. As personagens vivem o que têm de viver e tudo o que eu lhes planeei como destino existe apenas vagamente. Uma mulher negra surge do escuro de uma porta que dá sobre uma passagem, uma irmã abraça outra dizendo: "Veja o que me fizeram? Já nem sou mais mulher", enquanto por detrás dela, o rio Preguiças faz juz ao nome...
Encontro por acaso na net, uma imagem do lugar exacto onde estas duas mulheres choram e contam uma à outra as vidas separadas que tiveram.




Mais uns dias e não haverá mais nada para contar. Apenas rever. O círculo fecha-se para sempre e o livro será o que tiver de ser.
Há qualquer coisa de triste nesta alegria.

18 de agosto de 2006


PAREDES DE COURA RULES

Foi o festival português com o melhor cartaz.
Por ele e pelo espaço envolvente, aguentámos a chuva, as casas de banho impossíveis, a pavorosa comida obrigatória que era vendida no recinto (destaque para a barraca que vendia lasagnas que lembravam um cruzamento entre uma alforreca morta com um ninho de vermes e para a inacreditável 4EVER COLA...).
Os melhores concertos foram, para mim, os !!! (chk chk chk), uma explosão de energia e ritmo em palco; Yeah Yeah Yeahs, com a sua maravilhosamente maluca vocalista, os Bloc Party. E claro, o Morrissey (dispensava-se a saída de diva, desde o meio de uma canção até ao Mercedes estrategicamente à espera, mas enfim... Sem isso, imagino que não tivesse sido Morrissey).
Um festival memorável que justifica os quilómetros que o pessoal aqui do sul tem de fazer, mapa acima.
Se a coragem não faltar para o ano há mais.

13 de agosto de 2006

CRIAR AMBIENTE

Há anos que leio os artigos da Luísa Schmidt no EXPRESSO. Graças a ela fui abrindo os olhos para a destruição ambiental que os governos, um após outro, aceitam, quando não a promovem. Esta semana volta a falar do descalabro do litoral, além de um duvidoso negócio de instalação de uma Plataforma Não-sei-do-quê em terrenos agrícolas e de reserva ecológica na zona de Castanheira do Ribatejo.
Como os governos andam sempre a reboque dos jornais, nomeadamente do referido semanário, fico sempre admirado como é que tem sido possível ignorar os seus avisos e análises ao longo de todo este tempo. Mas, sim, foi possível. Ainda há margem para a surdez.
É por isso que Tróia avança nas condições em que avança e que uma cimenteira continua, como um cancro, em plena serra da Arrábida. Imagino que todos os ministros dirão a mesma coisa: "é difícil, ir contra os interesses instalados, ou direitos adquiritos, ou simplesmente contra uma pilha de dinheiro que pressiona, manipula e, se for preciso, acena com lugares na administração das suas empresas, quando a vocação para o serviço público acabar". Pois, de facto. Alguns de nós é que imaginávamos que eles tinham sido eleitos para isso.
Tal como na Cultura e na Educação, este governo tem uma prestação fraquíssima no Ambiente. Calculo que seja por "não se poder travar o progresso". Uma cavaquice, portanto.

10 de agosto de 2006

WELCOME TO THIEVES PARADISE

O obviamente insano presidente da Madeira (nome real do cargo, uma vez que "rei" e "imperador" seriam inconstitucionais) apelou mais uma vez a todos os empresários que quiserem fugir aos impostos em Portugal. Quem achar que andar a pagar o que a lei fiscal determina não é bom, que se transfira para o domícilio fiscal da Região Autónoma da Madeira. "É que aqui nem sequer há bufos», afirmou. Recorde-se que na Madeira o IVA varia entre os 15%, 8% e 4% contra 21%, 12% e 5% aplicados de norte a sul do País. No IRS a diferença representa menos 6 pontos percentuais no escalão máximo (fonte DN/Diário Digital, jornais actualmente colados à direita portuguesa, depreendo que insuspeitos, portanto).
Há amigos madeirenses que acham que se exagera ao ligar a este tipo de ideias, mas a verdade é que Jardim simboliza o lado pior da democracia: o ter de aturar desaforos de um político sem vergonha e que se acha (e é) imune às regras que regem os restantes habitantes do seu país. A atitude dele deveria encher de vergonha quem tem de habitar no arquipélago e que acredita que se pode desenvolver uma região sem atropelos constantes a tudo o que a maioria dos portugueses se habituou a considerar como valores fundamentais no pós-25 de Abril. A honestidade, por exemplo.
De qualquer maneira, não seria preciso ele vir lembrar que enquanto este governo por lá se mantiver a corrupção e a pouca-vergonha serão bem vindas. Há mais de 9 milhões de outros portugueses que estão fartos de saber isso. Diria até, muito fartos!

8 de agosto de 2006

teatro em agosto

Para os que não vão de férias este mês, há peças em cena.
Por exemplo, esta:
Théâtre des Oreilles_Oú habite le théâtre?

3, 4, 10 e 11 de Agosto às 21h30

Informações aqui

7 de agosto de 2006

E POR FALAR EM ACTORES DE NOVELAS...

Leio na folha online que um actor participante numa coisa que está a passar na SIC (creio), Cobras&Lagartos, invadiu os estúdios Projac, da Globo, em "sunga", disparando tiros para o ar.


Imagem de Dualib em carteira de motorista

"Estou me sentindo um pouco isolado e espero que a minha família e o Corinthians me ajudem", afirmou Dualib, que foi transferido ontem da 32ª DP (Jacarepaguá) para um centro de detenção provisória na zona norte do Rio. Dualib vai responder processo por tentativa de homicídio e ameaça e deve aguardar a decisão da Justiça detido. O ator afirma, no entanto, que só atirou para o alto e contra alguns vidros. "Tive um surto artístico", classificou. Ontem, ele não recebeu nenhuma visita da família. Ainda no começo da tarde, o presidente do conselho deliberativo do Corinthians, José de Castro Biggi, aprovou a expulsão do ator, que era "conselheiro vitalício" do clube.

A mãe de um actor português de quem não me lembro o nome, mas que é amigo do Santana Lopes, já mandou deitar fora todos os calções de natação do rapaz. "Gosto muito do meu filho, por isso, já fui ao Rosa&Teixeira para que lhe fizessem calções com perna, às riscas verdes e cor-de-rosa".
O MÉTODO

Ser actor não é para qualquer um. A provar isto estão as declarações de uma jovem actriz de Morangos com Açúcar, que se passeia pelo Algarve com o namorado. Sobre a preparação para o papel que desempenha na novela, face ao que executava na novela anterior, declarou: "Voltei a usar o cabelo mais comprido. Fiz extensões e estou com um tom diferente. Não tive de fazer uma grande mudança?. A miudagem que assiste só para lhe ver o corpinho concorda com este método.

5 de agosto de 2006



O MILAGRE DE OURIQUE

Numa tentativa de provar que ainda há pessoal vivo no ministério da cultura, a despeito da ausência de sinais vitais desde o início do mandato, a ministra lá assinou um despacho que permite a exumação dos ossos de Afonso Henriques, avô de todos nós. Desconheço o interesse dos investigadores da Universidade de Coimbra por este pedido. A não ser que queiram descobrir como é que se pode tropeçar nos próprios pés durante 800 anos, não estou a ver. Mas enfim, cada um sabe de si, e a investigação universitária em Portugal vale o que vale. A ministra, é que num rasgo de garantias metodológicas exigiu o cumprimento de uma série de medidas de cautela no processo. Uma lista extensa, ao que consta. O último ítem terá sido, porém muito claro, embora misterioso e exigiria especificamente a proibição de Paulo Portas posar em lingerie finlandesa, ao lado das ossadas, ostentando ao pescoço um letreiro a dizer "Sou chegado no Retro - Porto Galinhas for ever!". Manuel Monteiro poderá ter vindo protestar por não ter sido referido na lista de proibições.

4 de agosto de 2006




TROCA-SE UM DIA DE ESCRITOR POR UMA TOALHA NA PRAIA

As minhas vizinhas devem imaginar que vivo da droga ou do desemprego. Eu no lugar delas também era capaz de pensar o mesmo, se visse todos os dias, de manhã à noite, um tipo que não sai de casa, assomando, desgrenhado, à micro-varanda para avaliar se o Verão ainda lá está, ou para tentar avistar o carro que estacionou no mesmo sítio, muitos dias atrás, e onde os pombos desenharam com excrementos "Welcome to the real world".
Se alguém quiser uma vida de escritor com romance para entregar na gráfica, JÁ,JÁ, e que ganha paralelamente o pão como argumentista com deadlines tão pequeninos que seria preciso uma lupa para os ver, que avance. Não que eu não goste desta tortura. Mas, hoje, só hoje, trocava a conversa com as minhas personagens por um lugarzinho na areia...

2 de agosto de 2006

HOJE VOU À LAPIDAÇÃO

A rapaziada que se divertiu a torturar e a matar um transexual do Porto foi condenada a 11 e 13 meses de internamento num "estabelecimento". A descrição do crime colectivo foi elucidativa. Ao longo de vários dias foram ter com o toxicodependente, batendo-lhe primeiro, porque tinham curiosidade "em ver um gajo com mamas" depois voltaram a agredi-lo com gravidade. Regressaram ainda para lhe atirar com barrotes de madeira para cima e como ele estava inanimado, atiraram-no para um poço, juntando-lhe os barrotes para ter a certeza de que se afogaria. "Uma brincadeira de mau-gosto", na opinião benevolente dos juizes. Julgo que se refeririam ao gosto da água estagnada a entrar nas narinas, boca e pulmões da vítima ferida, até que a morte por asfixia sobreveio.
A mãe de um dos meninos vai recorrer da sentença. "Muito pesada".


Jorge Miguel Gonçalves (foto) in Público

1 de agosto de 2006


ABOLIR É PRECISO

Apesar de ter sido oficialmente abolida a escravatura no Brasil a 13 de maio de 1888 (em Portugal o processo iniciou-se em 1854, com os escravos pertencentes ao Estado, a Igreja seguiu o exemplo dois anos mais tarde e finalmente a lei foi promulgada para todo o país em 25 de Fevereiro de 1869), ela continua a existir, sob formas um pouco diferentes, nalgumas regiões. Sobretudo, nos estados de Mato Grosso e do Pará, Da Agência Brasil, encontrei esta notícia, já com algum tempo. Mas que retrata uma situação longe de ser ultrapassada.

"Governo propõe a fazendeiros compromisso para acabar com escravidão

A reunião entre o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, do Trabalho e
Emprego, Luiz Marinho, e o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), resultou em uma proposta de parceria
com as unidades produtivas do estado para erradicar o trabalho escravo na região.
O Mato Grosso foi o estado brasileiro em que mais trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo no ano
passado. Os proprietários de terra serão convidados para assinarem um termo de compromisso pelo fim do trabalho
escravo. (...)

As unidades produtivas que não assinarem o pacto serão rigorosamente fiscalizadas pelos grupos especiais de
fiscalização móvel do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). De acordo com o ministro do trabalho, Luiz Marinho,
existem no Brasil cerca de 25 mil trabalhadores em situação análoga à escravidão. "Olhando o mercado de trabalho
brasileiro nós estamos falando de um residual. Mas é um residual que incomoda, envergonha e que nós precisamos
acabar", afirma Marinho.

Em relação ao incidente ocorrido no dia oito de fevereiro, quando uma ação da Polícia Militar do Mato Grosso atacou a tiros
o Grupo Móvel de Fiscalização do MTE, Marinho afirmou que o proprietário da fazenda onde houve o conflito induziu a
polícia militar ao erro.

"Tanto para nós, do governo federal, quanto para o governo do estado, é um fato isolado e que nós temos que tratar como
fato isolado. O que é importante para nós é trabalharmos conjuntamente para avançarmos no combate ao trabalho
escravo e projetarmos no tempo uma meta para a erradicação", afirma Marinho."
Pois.
Para saber mais sobre este assunto ler AQUI


BÊ AGÁ

Quem andar por terras mineiras, dê um salto até Belo Horizonte (Minas Gerais). De 10 a 17 de Agosto decorre a feira do livro. A nuance para nós, que também temos feiras país afora, é que os programas culturais começam todos os dias às 9.30h da manhã e só acabam à noite. Além dos inevitáveis lançamentos, existe ainda um grande número de espectáculos (teatro, música, contadores de histórias) que atrai o público, non stop, até junto dos livros.
Belo Horizonte é uma belíssima cidade, capital da região mineira, com gente acolhedora e uma população afável. Destaque para a arquitectura do centro da cidade, desenhada por alguns dos grandes nomes da arquitectura brasileira.
A mim, pessoalmente, tem zonas que inexplicavelmente me fazem lembrar Lisboa. Sobretudo a zona do Jardim da Estrela, av. Álvares Cabral, por aí.
MUDANÇA DE ENDEREÇO

Amigos que escrevem para cá: o e-mail mudou. Devido à carga brutal de spam e ao facto de eu não querer comprar Rolex, aparelhos para expandir a anatomia ou responder a 200 mensagens de Olga, a boneca virtual, fazem com que vos diga que nos mudamos para o gmail.
O endereço é bestialmente difícil de fixar, mas ainda assim: prazerinculto@gmail.com
Fiquem à vontade.

27 de julho de 2006

O EXÍLIO
"A pianista Maria João Pires abandonou o Projecto Educativo de Belgais, que desenvolveu no concelho de Castelo Branco, e decidiu ir viver para o Brasil, onde já pediu a autorização de residência." in Público

Esta partida para o exílio de uma das nossas maiores pianistas é sintomática do desafecto nacional pela iniciativa e pelo talento. Se olharmos a história vemos que os melhores foram sempre ou quase obrigados a partir para terras onde pudessem respirar. Existir, sem que a mesquinhez nacional os puxasse constantemente para baixo. Portugal é, de facto, como o deus mitológico que comia os seus filhos à nascença. Não nos amamos. Não queremos ver a excelência, muito menos distingui-la publicamente.
Maria João vai para a terra da energia do Olodum, das baianas que nos destroem o palato com os seus acarajés e para os domingos eternamente em festa, de caruru em caruru.
Os meus amigos bahianos é que têm sorte. E, aqui para nós, trocar Castelo Branco por Salvador da Bahia, não é uma troca, é um prémio.
Pena que ,não tarda nada, descubra que a saudade se instalou clandestina no quarto da empregada. Afinal foram os portugueses que inventaram a palavra. Percebe-se como.

25 de julho de 2006


O DESTINO DAS ESTRELAS

Hoje fiquei a saber duas coisas.
A primeira que o livro da Fátima Lopes está em primeiro lugar no top de vendas. É sempre tocante ver nascer uma escritora numa cara tão familiar.
A segunda que amanhã, de acordo com a Maya (outra que anima tão bem as manhãs) vou ter um problema de varizes. E eu que nem sabia que as tinha. Devem-me nascer esta noite, com certeza...

Só por isto já vale a pena não emigrar. Sim, senhora. Grande dia...!




22 de julho de 2006

SÁBADO DE MANHÃ

Tomo o pequeno-almoço e leio "A MANCHA HUMANA" do Philip Roth. Há que tempos que andava para comprar este título. Aconteceu, ontem. Na Fnac, essa espantosa armadilha para as carteiras de quem gosta de livros, discos e filmes. Adiante.
Às vezes é difícil definir o que é um bom escritor. Um formidável escritor. Geralmente, não nos lembramos de nenhum, ou sempre do mesmo. Mas, hoje, enquanto iniciava a leitura deste livro, lembrei-me dessa questão. Um bom escritor é aquele que carrega o gigantesco peso de uma língua nos braços como se segurasse um recém-nascido. Balança-a e mostra-a aos convidados, que somos nós, os leitores, como se fosse o pai e a língua acabasse de nascer. E mais: ainda mal começa a gatinhar, e já nós conseguimos ver todo o seu destino formidável. Os grandes escritores são simples. Porque extraordinariamente complexos. Nós, os que escrevemos (eu, pelo menos) ficamos sempre calados de admiração por este domínio da palavra e do conteúdo. Tomamos consciência do tempo e do talento que serão precisos para fazer o mesmo. E duvidamos seriamente de um dia nos aproximarmos desta "simplicidade". E o pior é que não adiantaria imitar. A Arte não se compadece com a imitação. E esta é a maior armadilha da escrita. A maior parte dos livros publicados são escritos por antigos leitores. Por vezes, por pessoas que ganham a vida a redigir notícias ou a elaborar spots publicitários. Confundem o teclar com o "escrever". A admiração pelo talento. Porque leram; porque querem reproduzir essa admiração. E é louvável este gesto, no sentido que pretende apenas retribuir o que se retirou com a leitura de tantos livros. Mas a Literatura é outra coisa. Está para lá da vontade . Mesmo da boa vontade.
O Philip Roth não é uma "leitura de Verão". Nenhuma editora o lançaria neste período de vendas. O tempo é de sol, mar, bronzeadores e revistas fúteis. Tempo de livrinhos.
Há um tempo para tudo. Mesmo para a distracção do calor.
O Verão é que passará depressa e o nosso tempo de vida será escasso.

20 de julho de 2006

ILUSTRADORES Gosto da Anna Laura Cantone, por exemplo. Mistura desenhos com colagens, criando dimensões e texturas. Em Portugal, podemos ver o seu trabalho em livros como o sarcástico UMA NOIVA BELÍSSIMA, de Beatrice Masini (Livros Horizonte).

19 de julho de 2006


BOAS FÉRIAS SR. DOUTOR!

Hoje, o presidente da república convidou, por nossa conta, os cheer leaders do parlamento. No final, pareciam todos muito satisfeitos uns com os outros. Amanhã vai tudo de férias. Dois meses. Devem estar exaustos. Não têm a vida regalada, por exemplo, dos professores, que continuam a trabalhar na papelada, depois de terem contido a enxurrada de hormonas adolescentes durante 10 meses.
Claro, que pelo caminho, ficamos com um conjunto de leis importantes por aprovar. Mas deviam ter o cu doído. De tanto o esfregar de umas cadeiras para as outras.
Vão lá a banhos, vão. Quando voltarem, estamos cá de novo para vos pagar o brutal esforço.

18 de julho de 2006

PEQUENOS PRAZERES

O Elogio da Ginja, o "tratado afectivo-gastronómico-literário" de Paulo Moreiras sobre o fruto e a bebida que foi recentemente editado pela QuidNovi, numa edição acompanhada pelas excelentes fotografias de Paulo Cunha, será lançado em Óbidos, uma das capitais nacionais da Ginjinha, no próximo sábado, dia 22, pelas 18.00h, no Museu Municipal.

O livro é óptimo e o seu autor também. Conjugação rara.

17 de julho de 2006

ENQUANTO O SOL ARDE

o país desmembra-se, derrete. famílias, as de gente livre e as de obrigação, empurram-se sobre o alcatrão escorregadio do mapa, em direcção às praias, aos festivais, à avó a quem se começa a telefonar em Junho e que tem um grande quintal, a mesa sempre posta e que fica contente por saber que a descendência não está morta, apesar do silêncio dos meses. os jornais ficam sem nada para escrever e desenterram o mexerico, escarafucham na não-notícia como quem é obrigado a tirar uma salsazinha dos dentes para manter o emprego. os livros de Verão flutuam até às prateleiras, levezinhos, levezinhos..., as páginas à prova de grãos de areia e de autoreflexão. faz tanto calor no nosso país que até as trovoadas seriam bem-vindas para alguns. mas as trovoadas são secas, não trazem nada dentro. mas que vida poderia coexistir com o agitar de asas das cigarras?

14 de julho de 2006

14 DE JULHO

Amanhã, a Inveja, a Imbecilidade e a Mesquinhez nacionais começam a ir a banhos.
Queira Deus que não regressem.
O país agradece.

10 de julho de 2006

LA VICTOIRE

Zidane ganha a bota de ouro do mundial.
Calculo que seja por não existir o prémio "Capacete de Ferro"...




6 de julho de 2006

na tempestade navega-se. a contragosto, contrariando o corpo do navio. quando os céus escurecem e as ondas se levantam à nossa volta parece que a morte nos atingirá mil vezes; que nada sob os nossos pés voltará a ser seguro. e contudo, ao parar para escutar vemos que é quase tudo barulho e luz; que os deuses que se riem de escárnio são vozes na nossa cabeça. na tempestade julgamos temer a morte mas é da vida que fugimos. por cima das nossas cabeças restam pássaros, pequenos, molhados, mas de asas abertas por entre as nuvens escuras. olho os meus pés descalços e vejo que ainda estão sobre tábuas feitas de uma árvore que um dia foi terrestre e agora se tornou em coisa marinha. e descubro que estou vivo. vivo no meio da tempestade, do vento que sopra, da chuva que cai. vivo, sobre a música das águas.

5 de julho de 2006

PRONTO, TÁ FEITO. ASSUNTO ARRUMADO

Por cá, todo o país está contente com os seus jogadores e treinador. Portugal resolveu seguir o exemplo brasileiro e deixar a França chegar à final. Mas lutaram com garra e coragem.
Não houve decepção. Apenas a ideia de que por uma vez, os lusitanos trabalharam bem.
Outros dias virão.

4 de julho de 2006

PESSIMISMO O(P)TIMISTA

Da Bahia chega-me esta charge optimista para os portugueses.
Provavelmente, vai ficar desactualizada já, já...




3 de julho de 2006

PARABÉNS!
Câmara municipal de Lisboa e o seu vereador pela organização do festival Village.
Todos os cinéfilos que sonham transformar Lisboa em São Francisco, agradecem.
Pena as salas vazias. Mas o que é isso ao lado de um ambiente tão alegre?!
NEVER ENDING STORY

"O presidente da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, cuja comissão de serviço terminava hoje, foi reconduzido no cargo." in Público.
Depois de ter batido o pé e se ter auto-declarado insubstituível, Bénard da Costa não irá para o (nosso) bem merecido repouso. O homem que nos tem chagado a cabeça com o Johny Guitar, e com o mesmo filme do Antonioni há 26 anos, semana sim, semana sim, vai finalmente cumprir o seu dever de trazer aos contribuintes o mais inovador do cinema mundial. Assim, para a semana, espera-se o maravilhoso filme "Johny Guitar" e, para entusiasmo geral, vamos assistir a mais Antonioni.
Bem-haja a ministra que fez esta cedência e o primeiro-ministro que considera a cultura uma coisa simpática para a qual ninguém tem tempo.
Cada tiro, cada melro.

2 de julho de 2006

O SILÊNCIO MOMENTÂNEO DAS BANDEIRAS

Na minha rua, a enorme comunidade brasileira ficou calada de triste, por um momento. Foi pena, claro, ver partir o Brasil, candidato natural à copa. Mas o jogo tem dessas coisas.
Agora já se começa a ouvir, aqui em Lisboa, um "estamos com Portugal". Um voto com sotaque nordestino, paulista, baiano...
Pelo lado positivo, ficamos todos irmãos de novo. Ao menos isso.
Abraço para os amigos do outro lado.

1 de julho de 2006

HORÓSCOPO DO DIA

Hoje é sábado e faz sol. Estou sentado em casa, como na praia, o vento levanta-se um pouco e há areia que me incomoda de vez em quando. Mas ainda assim, há entre mim e o barulho das aves que grasnam e sujam as plantas com excrementos uma arriba fóssil. Hoje é sábado e não é o sábado mais perfeito de sempre. Mas ainda assim é o final de uma semana longa, feita de dias e mais dias.
Amanhã será domingo, ou não. Que importa?

Joaquin Sorolla

29 de junho de 2006

QUEM MEXEU NO MEU QUEIJO (DE MINAS)

Durante o jogo do Brasil, gabo o estilo da equipa perante os protestos da progenitura: "Desde que voltaste de lá que estás mais... "brasileiro".
Não sei por que diz isso. Só porque estou a terminar um romance que fala desse país continente, enquanto na minha mesa repousa um Guaraná Antártica, um mapa (danificadíssimo) do mesmo país e nos auscultadores toca a guitarra caipira de Helena Meirelles... É má vontade, no mínimo.
Na verdade, o que eu fiquei foi um tiquinho "maior". Mas isso não dá para ver ;)

28 de junho de 2006

É URGENTE O AMOR . À ARTE

Ontem, por mero acaso, visitei a Fnac à hora do lançamento do livro "Retrovisor - Uma biografia musical de Sérgio Godinho", do Nuno Galopim. Não cheguei a tempo da apresentação, mas ainda pude cumprimentar um dos meus raros ídolos. Devo-lhe horas de alegria infindáveis há mais de vinte anos (pensando bem..., bem mais de vinte anos, god damn it!). Foi o poeta dos anos 80 e cada palavra que fez o favor de nos cantar continua a fazer o mesmo sentido.
O livro é lançado pela Assírio, outra das editoras a quem devemos a melhor poesia (para não mencionar em edições antigas, o Mishima e por aí fora, no campo da prosa). Não estava lá a multidão que parece ter-se acotovelado uns dias antes por um autógrafo da Floribela, ou lá como é que se chama a rapariguita das novelas.
Por isso mesmo, é preciso abraçar os bons. E aqueles que gostam dos bons. Os que distinguem entre o hamburguer enfiado pela boca abaixo pela televisão e a obra original. Seja na literatura, na música ou noutra arte qualquer.
Seria tudo mais simples se a minoria dos que perdem tempo a escutar o mundo se unisse, passasse palavra e se mobilizasse para ir "lá" cumprimentar, dar um abraço, dizer ao artista que não está sozinho...


25 de junho de 2006

OS JOGOS

Lá passámos. À batatada e corridos a cartões do homem de amarelo, é certo.
Nas ruas, toca a buzinar e a correr para o Marquês de Pombal (rotunda do centro de Lisboa).
Apesar do jogo ter sido muito pouco jogo, ainda assim foi uma vitória. Por uns dias, Portugal vai levantar uns centímetros da calçada.
Vamos.

22 de junho de 2006

O CAMPEONATO

Claro que torço por Portugal como toda a gente. Mesmo pela nossa Estrelita Merchiana, que joga sozinho e adora o som das vozes excitadas com a sua corrida.
E sem perceber um boi de futebol, salta-me à vista o trabalho do treinador. A forma organizada como o gaúcho meteu os craques lusitanos a jogarem entre si.
Se aí no Brasil ainda há quem acredite que os portugueses não amam os brasileiros, desenganem-se: mais uma passagem de fase no mundial e vamos andar todos com um gigantesco "S" na camisola
;)
SEM NET

Olá a todos. Com a maldição da net caída sobre os ombros, não tenho podido escrever aqui nada. Nem ler os vossos comentários.
Acrescente-se a isto, a pilha de nervos, por ter assinado contrato com uma produtora louca que ganhou um subsídio (sabe Deus como) para um filme e que insiste em querer reavivar o pavoroso cinema português dos anos 80 ("Actriz para isto era a Victoria Abril... ou talvez uma Assumpta Serna..."), e compreenderão como fico agradecido por ver as vossas palavras simpáticas.
O LIVRO DA GLÓRIA começou a ser escrito há vários anos (o que me dá vontade de rir, antecipada, porque alguns dos temas tratados, explodiram nos últimos tempos e não faltará quem os considere "copiados da realidade actual" :) Enfim... A literatura é isto mesmo: o tempo perde a sua linearidade e acabamos todos por ser Paulos Cardosos involuntários, lol).
Espero que gostem e que ele saia a tempo...
Se a maluca não me enlouquecer entretanto, claro.

14 de junho de 2006


AO PRINCÍPIO ESTRANHA, DEPOIS...

"O Presidente da República, Cavaco Silva...", estava eu a ler no Público. Achei a frase esquisita...
Mas calculo que com o tempo a gente se habitue.
Como quando se mete o pé numa poça de chuva e ficamos com as peúgas molhadas o dia todo...

12 de junho de 2006

AGORA A MINHA FEIRA PESSOAL :)
(SÓ UM LANÇAMENTO E PRONTO)

Para os meus cinco leitores interessados, estou a terminar o meu próximo romance. A sair em Outubro.

"O Livro da Glória"

Sussurro aqui o título.
Shhsttt... Fica entre nós.
FEIRA DO LIVRO

Como diria o meu amigo B.B.: "Bom, isto passou-se..."
Não dei pela programação cultural. Muito menos pelo país convidado (que tem uma literatura cada vez mais forte e variada). Nos dois casos, é pena.
Alguém escrevia, ontem, num jornal, que já não há pachorra para ler o que se diz sobre as feiras do livro. E, contudo...
O facto é, que me lembre, a única que teve um sucesso claro, foi a organizada pela Clara Ferreira Alves e a casa Fernando Pessoa. As últimas, coordenadas por gente com mérito e que estimo, foram ou elitistas, ou pura simplesmente desinteressantes. Este ano, nem ninguém deu por nada. Estou a falar de Lisboa. No Porto, não sei.
Há qualquer coisa de festa entre os apreciadores de livros que não aconteceu. Sim, compraram-se alguns. Sim, os jacarandás continuavam em flor. E sim, nós, os autores, já temos umas cadeirinhas mais confortáveis do que as plásticas do AKI com que nos costumavam brindar.
Mas ainda não se encontrou a fórmula que reúna um grande número de visitantes, a aproximação entre quem escreve e quem lê e a possibilidade de promover debates e lançamentos que interessem às pessoas.
Já não há pachorra, nisso a senhora tem razão, mas muitos de nós, sentimos que as feiras do livro são cada vez mais oportunidades perdidas.

6 de junho de 2006

permitam-me que repita um post antigo. estava a pensar em literatura e não me ocorre nada melhor



"
O SILÊNCIO
Porque é que os melhores do mundo são geralmente os que menos se ouvem?
Deve ser pela mesma razão que as plantas saem da terra em silêncio..."

5 de junho de 2006

FEIRA DO LIVRO

Falta-me o tempo, para o que costuma ser o meu viciante hábito de subir e descer as ruas de quiosques livrescos.
Estou a ver que só dia 11 é que me organizo para lá estar.
(Suspiro)
Vida de escritor/pintor de casas é dura...
A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR FUTEBOLISTA

"Arrogantes de merda" é a expressão que me vem à cabeça quando vejo as estrelitas da seleccão nacional passar em velocidade de cometa, a cara fechada, em frente da multidão de emigrantes que se deslocou para os apoiar. Alguns fizeram centenas de quilómetros para ver de perto um bocadinho de "Portugal". Qualquer pessoa que não fosse uma besta malcriada teria percebido que aquela multidão não é a mesma que está à porta do estádio nacional. É gente fragilizada pela distância; gente que ama mais o país do que nós que estamos em cima dele e só lhe vemos os defeitos. Custava alguma coisa abrandar, sorrir e agradecer o carinho que lhes estavam a oferecer? Parece-me que não.
Se os nossos internacionais, com os seus salários milionários e as suas roupas e carros de milhões querem armar em estrelas, então aprendam com as de Hollywood. No meio da multidão, não há nenhuma que não pare para cumprimentar os fãs, deixar que levem uma rápida foto para casa e a ilusão de terem roçado o sonho. Os nossos, não. Emigrantes dourados, quase todos, tratam os outros emigrantes como um monte de lixo que foi ali porque quis...
Não é bonita, a expressão, mas "arrogantes de merda" é a que melhor serve esta equipa.

31 de maio de 2006


AFINAL HOUVE UM PRÉMIO

Numa das páginas dedicadas ao festival da eurovisão vinha a notícia:

"Lordi comes second
Nonstop wins Barbara Dex award 2006
Nonstop, the group which represented Portugal at this year's Eurovision Song Contest, won the Barbara Dex Award, the fan award for the worst costume at the competition, by a landslide. Lordi comes second.
The top-10 of this year's Barbara Dex award:
1. Portugal - Nonstop - 196 votes2. Finland - Lordi - 89 votes3. Iceland - Silvia Night - 75 votes4. Andorra - Jennifer - 72 votes5. Poland - Ich Troje - 62 votes6. Belarus - Polina Smolova - 57 votes Greece - Anna Vissi - 57 votes8. Turkey - Sibel Tuzun - 40 votes9. Malta - Fabrizio Faniello - 35 votes10. Russia - Dima Bilan - 26 votes
The award is named after Barbara Dex, who represented Belgium in the 1993 contest. She wore an "awfull, self-made dress that evening", the organisers of the annual award state at their website.
Six4one, Eddie Butler and Christine Guldbrandsen survived the vote; none of them got any votes for the Barbara Dex award."

Portugal à frente da Finlândia... Sim, senhor!

30 de maio de 2006

PROFESSORES
Não conheço um único que não se sinta atacado desde que este governo entrou em funções. Ao contrário do que se tenta passar, não está em causa o facto de a maioria dos docentes (do básico e secundário, sempre, já que o universitário - onde residem problemas superiormente graves, no meu entender - continua intocável, ou não fossem ou tivessem sido ou quisessem vir a ser, os ministros e secretários de estado, professores) quer passar a vida de férias, sem ser avaliado a não fazer nada. A situação é diferente. Este governo, como os anteriores olha para o orçamento da educação e vê que a grande fatia vai para os salários dos professores. Acha que ganham muito para os resultados pobres que apresentam. Não percebe que o problema dos resultados está no modelo de ensino inadequado para a sociedade contemporânea.
Acha que resolve tudo, obrigando os professores a cumprirem um horário de empregado de repartição. Não contabilizam as horas e horas que eles passam a preparar materiais e metodologias. Nem o tempo que roubam às famílas na tentativa de resolverem mentalmente questões de relacionamento pedagógico das suas turmas. Querem que eles sejam avaliados e, de preferência, despedidos.
Nem que para isso tenham de meter os pais ao barulho. Aqueles que nunca aparecem nas reuniões, os que só querem que os filhos passem e não chateiem, os que não querem ter de pensar no final do dia no telefonema da directora de turma a afirmar que o seu anjinho de cabelos louros mandou a professora de matemática para as partes baixas, enquanto esmurrava um colega.
Na verdade, nem serão esses a avaliar aquilo de que não percebem, nem viram. Serão sim, os inúteis das actas, os parasitas das associações, que não tendo nada que fazer na vida se organizam em comités de ignorantes promovidos, aproveitando o poder que a competência nunca lhes deu.
O governo julga que estas medidas são do mesmo calibre das que retiram os privilégios às forças armadas ou o lugar de camarote aos padres nas cerimónias laicas. Mas engana-se. Engana-se nos pressupostos de preguiça da maioria dos docentes e na ligeireza das consequências de retirar aos docentes o resto do prestígio e autoestima que ainda lhes restava. Se é uma sociedade em que as crianças e jovens não revejam qualquer modelo a seguir que pretendem, então, estão no caminho certo. Agora preparem-se para os anos da velhice em que estenderão a mão para atravessar uma rua movimentada...

28 de maio de 2006

JARDINAGENS

O ditador da Madeira disse mais um chorrilho de disparates (largamente aplaudidos, pelos interessados) ao discursar localmente. Anda chateado com esta coisa de ter alguns deveres para com o país que assegura a independência (e o financiamento das estruturas) do território.
Um dia destes, as negociatas e "corruptelas" que inevitavelmente existem debaixo deste regime com 30 anos (faltam 18 para voltar a celebrar-se o 25 de Abril, suponho...) virão ao de cima.
Nessa altura vai ser interessante ouvir o discurso dos dirigentes do PSD que durante todo este tempo alimentaram esta situação com a sua conivência interesseira. Por exemplo, o actual secretário-geral, Marques Mendes, que foi ao território laudar o grande líder.
Uma terra tão boa mereceria melhor sorte.

26 de maio de 2006

PRÉMIOS 2

O meu amigo e escritor, Carlos Barbosa, pede-me que comente a recusa do prémio Camões pelo escritor angolano, Luandino Vieira.
Não tenho nada a dizer. os prémios são nada. Ninguém que escreva para ser aclamado pelos seus contemporâneos chegou alguma vez à posteridade. Luandino terá recusado em função de viver uma vida que não precisa de honrarias (nem dos 100.000 euros). Não é o primeiro. Herberto Helder, o nosso maior poeta vivo, recusou o prémio Pessoa (altamente remunerado, igualmente) há vários anos atrás.
Que eles têm razão, não me oferece dúvidas.
Que a maioria de nós não teria o mesmo discernimento, também...

23 de maio de 2006

TAMBÉM PERCEBO DO CÓDIGO (ACHO...)

Depois de ler atentamente a revista Visão (nomeadamente uma caixa agressiva em que a/o jornalista atacava à dentada a Sofia Aparício por esta se dispôr a participar numa manifestação contra as touradas - abra-se aqui um parentesis para referir que a actriz-modelo, pode não ser grande a representar, mas que sabe muito bem aguentar-se com as tentativas de apoucamento, serôdias, isso sabe) julgo ter descoberto mais uma infiltração da opus dei. É nos produtos de beleza para homem.
Ora repare-se neste anúncio da Vichy: "A firmeza da pele depende do seu stock de silício - SILICIUM - R".
Sou capaz de ir escrever um bestseller (daqui até logo à tarde, no máximo) sobre o assunto...
"CODEX CILLICIUM" seria um bom título.
PRÉMIOS
Não serve de nada, uma vez que as vendas de um livro não aumentam com prémios e muito menos com críticas (já com polémicas cretinas nos jornais a coisa pode ajudar...), mas ainda assim registo com agrado a atribuição do prémio APE (Associação Portuguesa de Escritores) ao poeta José Agostinho Baptista. Uma escrita para lá da neve suja em que metemos todos os pés.
APITAS BEM MAS...

Notícia do Público: "O processo Apito Dourado está suspenso por decisão do juiz do Tribunal de Gondomar. A suspensão foi determinada depois de Carlos Teixeira, o magistrado do Ministério Público titular dos autos, avançar, ele próprio, com um pedido de escusa, argumentando que não tem condições para continuar a liderar a acusação pública.". A decisão passou agora para o superior do referido juiz... em Gondomar.
É preciso fazer algum comentário a isto? Ou (hipótese mais risível) prever o desfecho do único grande processo que tentou pôr a nu a óbvia relação entre o futebol e o dinheiro sujo?
Para quê? É o país que temos, com uma justiça que prefere a forma ao conteúdo. Ou não fosse esta a forma mais fácil de safar os peixes de esgoto do anzol.
FILMES

Em época de acalmia de festivais (Cannes está longe da carteira e do coração) é tempo de ir de novo ao cinema comercial. É preciso é ter cuidado não se vá parar a uma sala com o pavoroso Código da Vinci (o homem deve estar às voltas na tumba...).

OS PRODUTORES foi uma escolha feliz, no domingo :)

ps. este é um dos posts mais insípidos de sempre... Mas horas de pinturas de parede, carregamento de latas e trinchas pelas ruas de Lisboa e um finalizar de dia a trabalhar no tratamento de um filme com deadline para quinta-feira só podia dar nisto...
(suspiro) Dias mais sábios virão.

21 de maio de 2006

FESTIVAL DA CANÇÃO

...Eu sei: não interessa nem ao menino Jesus, as canções são uma piroseira e por aí fora.
Mas um lado muito antigo nosso ainda faz com que se torça por Portugal e se gosta de ouvir "Chanson numero un: douze points" :)
Este ano, o Eládio Clímaco, surpreendentemente vivo, ia tendo uma síncope com a vitória da Finlândia e os seus "monstrinhos" (sic). Já não se fazem baladas como dantes, helàs... Pobre homem.
Portugal nem passou à final. Não se percebe por quê. Talvez por ter sido representado por um grupo onde ninguém sabia cantar, as coreografias serem de sexta-feira à noite entre amigas bêbadas e irem vestidas com umas coisas que só me ocorre classificar como "panquecas de penas"...
Não sou um especialista, mas sinto que houve aqui uma grande injustiça. Oh, lá!

17 de maio de 2006

TUDO AO TOURIL

Com pompa, circunstância e contentamento geral, inaugurou-se o novo centro comercial de Lisboa, a praça do Campo Pequeno. Não deve haver macaco neste país que não esteja a pensar passar por lá, tal foi o cagaçal criado pelas televisões nacionais.
Este centro comercial tem uma particularidade, serve regularmente para torturar animais para gozo dos "aficionados". Foi aliás elucidativo ver as caras contentes do público colunável, ao escutar os instrumentos musicais que acompanhavam a entrada de vinte ou trinta centímetros de ferro no corpo de um animal. O sangue a jorrar, o La Féria a ganhar e o país que nós somos a saltar.
Até o Alberto João gostou. O que é dizer tudo.
Portugal está de novo no seu melhor: 200.000 (ou 400.000, conforme as fontes) em Fátima, a escutar um homem que conta como Nossa Senhora desceu dos céus e meteu a mão à frente arma que iria matar o papa da altura.
O fado é atacado em plenos pulmões, com mulheres e selins, meninas das tranças pretas e quejandas.
E a tourada volta em esplendor a alegrar os serões monótonos.
Só falta ressuscitar o Marcelo Caetano e as suas conversas em família para estarmos de novo no 24 de Abril de 1974...

16 de maio de 2006

A FRASE DA SEMANA COM MATERNIDADES À MISTURA

O debate televisivo, na RTP, sobre o encerramento de alguns blocos de parto pelo país foi elucidativo.
As populações sentem-se por não poderem nascer na sua terra. Claro que isso já acontece com todas as pessoas que vivem em aldeias ou em vilas com poucos habitantes: o número não permite a manutenção do serviço. Mas, enfim, as pessoas aborrecem-se e a gente percebe.
Também ficou muito claro o papel dos políticos em tudo isto. Pelo Psd, foi o senhor Negrão (que parece, geriu a neo-pide portuguesa, o SIS, durante uns tempos, tirando isso, não sei o que terá feito) e que esgrimiu os argumentos mais cretinos e demagógicos da noite. Nem outra coisa seria de esperar de uma figura que transpira ambição e falta de inteligência por todos os poros. (Posso estar enganado..., claro, se assim for, aqui fica a retratação.).
Uma enfermeira de Braga veio lembrar aos pomposos obstetras que quem faz os partos quase todos são elas. Alombam com o esforço, sem glória nem salário.
Mas a declaração da noite veio da obstetra de Barcelos, um bocadinho atarantada com a direcção da conversa. Quase a finalizar o debate declarou convicta:
"Eu sou uma Vaginalista!"
Que dizer...? Que não está sozinha, no opção..., enfim...

12 de maio de 2006


AINDA A QUESTÃO DA PRODUTIVIDADE

Ontem fui obrigado a esperar 4 horas numa casa vazia pelo senhor da EPAL (companhia das águas). Poderia estar a trabalhar, a ajudar velhinhas a atravessar a rua, ou a limpar as paragens de autocarro das resmas de beatas... Mas não: se queria ter água na torneira tinha de aguardar entre as 14h e as 18h. Na ocorrência, o senhor chegou às 18.35h (o dia tinha-lhe corrido mal).
Escusado será dizer que solicitei que me dessem a hora exacta da ligação presencial. Ou a hora aproximada. Ou que me telefonassem um pouco antes. Que não. Que a regra é perder meio-dia de trabalho. E bem bom que não foram 8 horas...
Será que somos tão poucos a citar o nosso cavaco na sua única frase de jeito: "deixem-nos trabalhar"...?

8 de maio de 2006

OS PÉS NA TERRA E A MÃO NA MASSA

Descobriu-se, hoje, graças a um recado da Comissão Europeia, que o facto de se produzir pouco em Portugal conduzirá a uma pobreza generalizada em 2050. Imagino que antes disso, já seja chato por cá andar. Lá vão ter os nossos filhos que ir à arrecadação buscar as malas de cartão.
Nada a que não estejamos habituados.
Depois, lá fora, vão trabalhar normalmente. Dez vezes mais do que faziam cá dentro.
Então, de onde vem esta preguiça nacional?
Não tenho a certeza. Em parte, julgo que vem do rescaldo da pós-ditadura. Depois de 48 anos sem outro direito que não fosse o de encher o cu aos mais ricos (interessante, a lavagem revisionista que uma geração mais velha e ressentida está a fazer do 25 de Abril, com a cooperação ignorante de uma geração que não faz ideia do que foi a Pide, o corporativismo, ou a troca de favores entre os grandes empresários e bancários com um governo corrupto, enquanto a maioria dos portugueses tentava descolar a pele do fundo das costas...), a gente empregada, acreditou que tinha chegado a hora de ganhar sem fazer nada. Para isso contribuiram (e continuam a contribuir) as organizações sindicais, inspiradas em princípios que foram buscar sabe deus onde. A própria prática sindical, que movimenta massas para não perder os tachos que lhes pagam as rendas há 30 anos, é exemplo disso.
No outro dia, no Chiado, um grupo de "jovens ferroviários", manifestava-se em favor da não-alteração dos seus direitos. Além do inenarrável "Arre porra que é demais", tão em moda no mundo levanta-te e ri da CGTP, exigiam que não "lhes tirassem a Pausa". E sentavam-se, quando diziam isto. Não tinham um ar particularmente cansado. Mas ainda assim, de todos os "direitos adquiridos", a "pausa" era a que falava mais alto nos seus corações.
Enquanto professor (ocasional), tenho encontrado nos últimos anos duas coisas nas gerações mais novas: a) uma profunda ignorância e total desinteresse por acabar com ela. b) a sua primeira preocupação é que "não lhes dê trabalho". Querem ir para casa, ou para o computador "comunicar". Ignorância e preguiça tornaram-se a base da sociedade portuguesa.
O que esperar disto? A pobreza e a perplexidade, quando descobrirem (pela televisão) que a chuva de maná só ocorreu uma vez e foi há muito tempo.
Claro que ainda vão ter que ir ao google descobrir o que diabo era o maná...
Socorro! Tirem-me deste filme...

6 de maio de 2006

MÃES DE PORTUGAL: AINDA HÁ ESPERANÇA!





Televisão pública comemora o dia da Mãe. É nestas alturas que um homem se sente mais pequeno.

5 de maio de 2006

ABRANDAR

Anda tudo cá, pela cidade, a pensar em "como fazer os carros ir mais devagar". Parece que os atropelamentos estarão um cadinho acima do razoável. Na cãmara, vá o departamento de espremer as meninges. Para a 24 de Julho, onde todas as semanas se estropia alguém, estão a considerar um complicadíssimo sistema electrónico.
(suspiro)
Algum amigo brasileiro que esteja na sala, faça favor de dar um passo em frente e explicar o que quer dizer "quebra-molas".

ps: ...como ninguém se adianta, chego-me eu à frente, para dizer que se trata das lombas artificiais que atravessam as estradas, feitas de cimento e sinalizadas antecipadamente. Vou voltar a explicar (porque aquela gente é lenta) : umas saquinhas de cimento, mais umas de pedra, brita, ou o que houver, uns baldes de água, tudo misturado, deita-se horizontalmente na via e deixa-se secar. Quem passar por ali, tem duas opções: a) abranda, b) escavaca o carro todo.
Posso garantir que a eficácia é de 100%. Custa é tão pouco que não há-de dar lucro a ninguém próximo da vereação, helàs!
Muito simples para a nossa cagança, também.
HOJE
comprei uma casa. Do tamanho de um lenço de assoar, é certo. E "comprei" é um exagero verbal atendendo aos próximos trinta e tal anos de dívida.
Mas, ainda assim, as paredes por pintar me pareceram amplas; cheias de promessas.
Algum livro escreverei ali dentro. Não sei é qual. Ainda está tudo em branco.

4 de maio de 2006

HÁ DIAS EM QUE AS ROSAS FLORESCEM COM MAIS DIFICULDADE


MODELO SOCIAL

Hoje ouvi a mais extraordinária declaração de um político. Pareceu-me sincera.
O deputado (creio) do CDS (não me lembro o nome...) que participa do programa televisivo "A Quadratura do Círculo" afirmava que gostaria que em Portugal o Estado tratasse as pessoas da mesma forma, independentemente dos seus rendimentos. Historicamente a sua posição situa-se no final do feudalismo. Mas ao contrário. O que ele propõe, pressuponho, é que quem ganha mais desconte o mesmo, pague as mesmas taxas moderadoras nas instituições públicas e por aí fora.
É o princípio do "se és pobre, a culpa é tua".
No fundo estaria certo... Se a maioria dos portugueses não achasse que é melhor viver numa sociedade com menos miséria ainda que a maior riqueza pague um preço. Aquilo que os padres chamavam dantes "caridade" e que agora se pensa mais como "solidariedade" (que é o mesmo sem pedir o beija-mão agradecido).

Por falar em desgraças. 85% dos pensionistas portugueses ganham menos que o salário mínimo nacional português. E o número impressionante de 3000 ganha reforma milionárias.
Fiz uma conta por alto (ainda inspirado pela presidência cavaquista) e em números redondos diria que estes eurototalistas levam do erário cerca de 15 milhões de euros por mês. Ou seja, o equivalente a 42.858 reformados normais.

Alguém que me explique a razão por que esta situação me deixa perplexo...

3 de maio de 2006

NADAR EM SECO

A cãmara de Lisboa continua de vento em popa. Cada tiro, cada melro.
A última é a decisão de impedir a ida ocasional dos munícipes às piscinas públicas. Ou antes, podem ir, mas com novo equipamento. Por exemplo, se um de nós se lembrar de pegar nas crianças e ir ao domingo de manhã à piscina do Areeiro, por exemplo, vai dar com o nariz na porta, se não levar uma declaração médica para cada membro da família. O atestado, até agora obrigatório apenas para as aulas, passa a ter de fazer parte da nossa carteira se quisermos nadar nas piscinas criadas e mantidas com os nossos impostos. Como a validade é de 6 meses, seremos obrigados a largar 60 ou 70 euros por um papelito duas vezes por ano, vezes o número de membros da família. Ou a perder dois dias de trabalho por ano, para ir ao médico de família (se conseguirmos consulta).
Claro... que este gesto paternalista, em prol da nossa condição cardíaca, poderia ser substituida por um papelinho, assinado à entrada, em que ilibávamos de responsabilidades a entidade camarária.
Mas, claro, o lóbi dos médico (que é distinto dos próprios médicos, bem mais honestos e simples) aliado à patetice camarária prefere uma situação mais onerosa.
Enfim, lá vamos pôr a natação de parte.



2 de maio de 2006

O PRAZER DOS OUTROS

Entrevistaram-me, ontem, a propósito desta minha mania de, uma vez por ano, organizar um workshop de "escrita livre". Em que autores fundamentava as minhas teorias? Onde tinha aprendido? E se dessas moitas já tinha saído coelho? Foi bom, porque percebi que a resposta era negativa em quase todos os casos. Menos no último, já que vi emergir da neblina dos seus textos várias pessoas. Algumas continuam a escrever. Algumas publicarão, para bem de nós todos, um dia destes.
Neguei (e continuo pouco interessado) os manuais do "Como escrever um livro". Os americanos pelam-se por isso. Os espíritos mais simples, ídem. Mas nem a literatura se faz de simplismos, nem nós necessitamos de mais livritos razoavelmente escritos. A criação literária é uma chatice incómoda. Vem de dentro para fora. Como um parto. Como um bebé sujo de placenta e líquidos em que não apetece pegar, quanto mais mostrar ao mundo. Sabe-se que alguém o amará e que temos de o proteger, mas não é bonito, objectivamente falando. Mas é desse montinho de carne que mexe que virá o futuro. A escrita, a verdadeira, é sobre o que não se conhece. É por isso que é tão difícil ser escritor.
Só os patetas não entendem isto. Os ignaros que se refugiam nas teorias literárias para tentar provar o que é bom e o que é mau.
Os exercícios de escrita que proponho são inúteis para quem quer ser como os escritores que admira. Esses existiram e agora estão mortos, excepto nos seus livros. Nunca mais voltarão em carne ou gesto. Só nos resta ser o outro. Ainda que o outro seja menor.
ESTAVA A VER QUE NÃO

O blogue enlouqueceu por uns dias. Pediu descanso. Não quis publicar nada. Hoje actualizou-se, felizmente. Por momentos julguei-me afónico.
Fónix!

24 de abril de 2006

A SEMANA AO TOQUE DA CORNETA!

Chega a 2a-feira à bruta. Com campainhas de porta, manhã cedo. Carteiros trazendo coisas registadas que se são registadas serão por certos coisas, e dificilmente boas. O sol está lá fora, valha-nos isso, mas aqui dentro ainda não aquecemos. É mais o entorpecimento do fim-de-semana que não aconteceu.Que alguém mande chamar o criado que toma conta da carruagem das vitaminas! Please.

21 de abril de 2006

INDIE - DIA 1

Abriu ontem, com o filme da Miranda July, "Me and You and Everyone We Know" e disparou com mais cinco sessões (a maioria esgotada).
Ao consultar o programa chega-se sempre à mesma conclusão: não dá para ver tudo, nem que se mude para uma tenda no jardim ao lado.
Até dia 29, o Indie volta a provar que um festival feito por pessoas que entendem realmente de cinema contemporâneo, que trabalham como doidos durante um ano inteiro, suportando os atrasos nos pagamentos das entidades apoiantes (nomeadamente a Câmara e o ICAM), se pode tornar num caso sério.
Bastaria ver a forma ingénua com que o Fantasporto está a gastar o orçamento em publicidade para promover uma mostra em Lisboa, agressivamente marcada para as mesmas datas, e as tentativas de intimidação junto de realizadores portugueses que outros festivais começaram a fazer, para perceber a importância do Indie. E neste parágrafo resume-se o princípio trágico dos portugueses: toda o sucesso que resulte do trabalho sério e honesto será sabotado. Para que não fique de exemplo.
No entretanto, é irmos vendo alguns dos melhores filmes feitos no mundo neste último ano ;)
POR CÁ, NUNCA! (PELO MENOS ATÉ ACONTECER)

"O Parlamento da Bélgica aprovou ontem à noite um projecto de lei que autoriza a adopção de crianças por casais homossexuais", in Público.

A gente por cá, nem pensar. Crianças só entregamos a pais e avós que as queimam vivas, antes de as deitarem ao Douro, a mães que as cortam em pedaços e alimentam os porcos com elas, ou a pais alcoólicos que lhes batem e as violam até que saiam de casa.
Citando o director do Refúgio Aboím Ascensão, há um ano atrás, "Mais vale que fiquem a vida toda numa instituição do que serem criados por não-heterossexuais".

Calculo que entre as faltas ao Parlamento e o regresso do escritório de advocacia onde acumulam, os nossos deputados se sintam reconfortados com a ideia que o mais importante é impedir a pandemia gay...

20 de abril de 2006

A NOSSA LAS VEGAS

Ai que grande alegria: abriu mais um casino.
O povo mobilizou-se para ver as senhoras chegar de vestido de noite e os senhores muito ricos, ou muito endividados, a sair do parque de estacionamento. Houve muita passadeira vermelha e muito fogo de artíficio. As televisões em directo e toda a gente a dizer: "Aqui é só espectáculos e máquinas a 1 cêntimento a manivelada. Qual ganhar dinheiro? Os proprietários só querem a alegria de todos. O senhor Ho é um santo tão grande como o abençoado Rat Singer".
Fiquei emocionado. Ainda há bons corações.
Mais um sonho do querido Santana Lopes tornado real. Um túnel de fichas, no fundo.
Alvíssaras! Alvíssaras! Chegou o nosso casino.

18 de abril de 2006


MATERNA DOÇURA - LISBOA

Chega finalmente a Lisboa, a adaptação do romance MATERNA DOÇURA, pelo grupo de teatro Trigo Limpo/ACERT.
Com uma digressão feliz por muitas localidades, o espectáculo poderá ser visto no Teatro Cinearte (em Santos), nos dias 28, 29 e 30 de Abril e 1 de Maio.
Os interessados que metam já na agenda, para não se esquecerem.



MORRER NA ESTRADA

A GNR está satisfeita: este ano só morreram de imediato 10 pessoas, nos 1244 acidentes registados. As restantes 25 vítimas em estado grave ainda levarão uns dias a dividirem-se entre "ligeiras" e "fatais". O ano passado foi pior, daí a alegria da nossa guarda.
Os funcionários da Prevenção Rodoviária é que estão chateados. O governo só lhes quer dar 1 milhão de euros para (deduzo eu) salários, percentagens às agências de publicidade e pagamento de materiais. Terá preferido investir nos equipamentos dos já citados guardas. Na entrevista à SIC Notícias, o representante da referida associação fartou-se de falar de dinheiro, sem nunca referir a eficácia das campanhas. Pois eu tenho uma ideia sobre esses resultados: sempre que saio de carro, vejo a minha vida e a da minha família ameaçada. Condutores que ultrapassam em curvas, sobre traços contínuos; gente que se atira para cima de mim se pretendo mudar de faixa (assinalando, atempadamente, a coisa, note-se) e ainda me buzina e chama maluco; pamonhas que andam a 60 à hora nas estradas nacionais, em todos os sítios em que a lei e o bom senso não permitem ultrapassagens para mal avistam um sinal de final da proibição começarem a acelerar (as vezes em que sou forçado disputar a passagem com velhos lunáticos e tipos agarrados ao volante, enquanto avisto a aproximação de um carro de frente, dariam para encher um livro). Quando ouço os resultados das intervenções da Brigada de Trânsito, fico com os ouvidos cheios de "documentação irregular", "cinto mal posto" e "colete luminescente não-homologado pela CEE". Raramente ouço falar em detenção por manobra perigosa, condução em máximos E excesso de velocidade, entre outras situações com que me deparo sempre que conduzo. Não é "às vezes": é "sempre".
Quando saímos para fora das cidades, na Páscoa, integramos um grupo, do qual várias pessoas morrerão ou ficarão com danos irreparáveis. Esperamos apenas que ainda não seja a nossa vez. Essa é a prevenção que temos.